ADAPT-AÇÃO

Quando se tem uma experiência de mudança, principalmente para o exterior, uma das coisas que mais chama a atenção é a adaptação ou não à nova vida. No meu retorno ao Brasil, as perguntas obedeciam uma certa ordem lógica, começando com “Hungria?” passando por “Qual o idioma lá mesmo?” e terminando com um curioso “E como você se adaptou?” Enfrentamos esse questionamento em várias etapas da vida, quando entramos na escola, mudamos de casa, de cidade, iniciamos a faculdade ou encerramos um namoro, mas nem sempre as pessoas nos interrogam com tanta preocupação e interesse como quando estamos imersos em outro país, em outra cultura.

Adaptação, segundo o dicionário: […]Integração de uma pessoa ao ambiente onde se encontra: a adaptação escolar de uma criança. Esforço para realizar esta integração: a inteligência humana é uma constante adaptação. Adaptação ao meio, ação modificadora dos fatores externos sobre o comportamento e a estrutura dos organismos vivos.

Percebo, lendo esse conceito, que adaptar-se a alguma coisa é muito mais que sobreviver a ela, é fazer parte, respirar, modificar e construir sobre ela. Então percebo que a minha resposta àquelas perguntas sai um tanto automática “Sim, Hungria. No leste da Europa.” – “Húngaro! Não, não, eu falava só inglês!” – “É… no começo é mais difícil, mas depois acostuma.” Calma ai, no começo é difícil, mas depois acostuma? Que resposta mais mentirosa e sem sentido é essa? Não sei como as pessoas não riam na minha cara depois de ouvir isso.

Primeiro, se tem alguma fase difícil (e é claro que tem) jamais seria no começo! Logo que você chega em um lugar novo tudo é lindo, nada tem defeito, é novidade, você quer conhecer as pessoas, interagir, experimentar. Não é difícil, é divertido, é uma aventura. A saudade nem dá lembranças, você até queria ficar um tempo longe da família e já estava enjoado dos mesmos colegas de bar. Constatação: o começo é ótimo! As dificuldades com a língua sempre viram piada, perder o metrô é sinal de falta de experiência, comer uma coisa desagradável é viver o local e tudo é absolutamente motivo para aquela foto radiante no Instagram, para encher os amigos do Facebook de inveja da sua vida perfeitamente nova e feliz.

Passada essa fase, onde nada mais é tão novo, você já se incomoda em não comer feijão com arroz, não acha tanta graça assim em não entender ninguém a sua volta, começa a ter preguiça de provar coisas novas no restaurante, cansa de não saber ler as placas, os rótulos, os cardápios, usa sempre o mesmo trajeto porque já não tem mais paciência de errar e pedir informação, parece fazer milênios que não vê sua família, os bebês crescem exponencialmente e, de repente, inauguraram vários lugares legais na sua cidade que seus amigos estão conhecendo sem você. Além disso, aquelas pessoas que agora estudam com você e eram seus melhores amigos no momento incial foram mostrando seus defeitos, assim como você (é claro) e nada pareceu mais tão genial assim. Constatação dois: o começo é realmente ótimo!

Não estou dizendo que essa fase é ruim, claro que não! Só é a mais complicada de todo o trajeto e, precisamos ser realistas, nem todas as pessoas estão preparadas para isso. E é esse o ponto que eu queria chegar. A quantidade de pessoas, estudantes ou não, com interesse em morar no exterior por pelo menos um período da vida só aumenta, e com elas essa dúvida de ser uma pessoa adaptável, superar as dificuldades e conseguir extrair o melhor da experiência. Alguns me questionam como eu descobri que tinha essa “facilidade”, minha resposta (que dessa vez é sincera) é: TENTANDO. Não existe um teste psicotécnico, vocacional, espiritual, que te responda se você tem o perfil, acredito que a coragem de enfrentar algo novo já é uma boa porcentagem da resposta, mas sejamos sinceros, só quem vive saberá. É como te perguntar se tenho perfil para ser viúva, e aí?

O que temos que entender é, que assim como várias coisas na vida, o intercâmbio não é uma excelente experiência para todos. Há sim pessoas que têm dificuldade em construir uma nova vida, ainda que temporária, sobre aquela que deixou. Há sim pessoas que têm medo de serem esquecidos pelos que ficaram. Há quem não consiga ter os mesmos hábitos, nem tão pouco criar novos. Há quem não se permita criar laços de amizade e confiança e sofra a falta do conforto dos velhos parceiros. E isso meus caros, não é defeito nenhum. Vai além da personalidade, da criação, dos pensamentos. E mesmo que pareça incompreensível para você que uma pessoa recuse a experiência de tentar, ou que desista no caminho, ou que supere tudo com traumas gigantes, entenda que ela com certeza tem as suas razões e, acima de tudo, as decisões que ela tomou não foram fáceis, certamente essa pessoa é extremamente forte e corajosa.

Como o nome do blog já diz, escrevemos pensando principalmente nos Brasileiros na Hungria, é ótimo recebermos visitas de não brasileiros e nem moradores da Hungria (Obrigada!), mas alguns posts são focados nesse leitor, que compartilha nossas angústias e nossas alegrias. Sei que várias pessoas estão passando nesse momento por algum tipo de agonia, alguns já ultrapassaram a fase inicial e estão enfrentando o caminho mais longo e árduo de todo o processo. Aposto que já não têm mais aquele ânimo de passear pela cidade, a mochila parece pesada demais para pensar em viagem, os amigos de repente se esconderam, alternam filmes com seriados e gastam as madrugadas no Skype, a atendente do fast food já te conhece, porque não há mais forças nem pra preparar aquele macarrão com salsicha, Facebook? Nem pra jogar CandyCrush, parece que a cada dia o tempo passa mais devagar e o clima faz questão de nunca te ajudar. Amigo, não importa em que época do ano isso vai acontecer, vai ser igual para todos, faz parte da experiência e, pensando pelo lado bom, é sinal de que a sua vida “normal e rotineira” era muito boa!

O grande, e muito grande, problema dessa fase é o método que você escolhe para superá-la. Não se tem muitas opções, você sabe que precisa levantar e fazer alguma coisa, mas também sabe que ninguém vai te ajudar e você sempre precisou daquela forcinha pra tudo. Praticar uma atividade física? Não nesse frio, muito menos no calor. Aprender uma língua? Eu pratico inglês enquanto estudo. Participar de algum projeto ou trabalho voluntário? Pode complicar minha agenda de viagens. Artes? Música? Não.. Não.. Não.. E essa imensa quantidade de nãos mergulhada num profundo poço de falta de motivação resultam naquela coisa que também termina em -ÃO. Ai que drama! Nada de drama, acontece e acontece muito, ninguém está livre da querida depressão, muito menos nessas circunstâncias. Para aliviar a história, meu “conselho”: Se já sabemos que todos passam por isso, temos que unir os sentimentos, unir as solidões, as saudades, as tristezas… Não é um grupo de apoio, é um apoio em grupo e faz toda a diferença. Compartilhar problemas que você pensa ser o único que tem e descobrir que todos estão sentindo a mesma coisa pode aliviar quilos de culpa e garantir mais noites de sono (nem vamos lembrar das lágrimas sem explicação porque elas não merecem espaço aqui). Transformar esse mar de pensamentos ruins e um sentimento mais forte, confidente, cúmplice. Quem sabe não começa assim uma verdadeira amizade para toda a vida? Evitar que coisas pequenas estraguem o que ainda tem pela frente e acreditar naquele velho ditado da menta vazia…

Depois dessa “receita de cura”, quer uma motivação? A fase final é tão boa quanto a primeira! Magicamente tudo volta a ser lindo, você se impressiona com tudo de novo, os amigos são realmente legais e você enxerga que vai sentir falta até daquele defeito mais maldito de cada um. As viagens? Não cabem mais na agenda nem no bolso (e essa é a parte triste), a saudade da família reduziu de repente, o inverno ficou lindo, as pessoas quase simpáticas, a câmera fotográfica não sai da mochila de novo e retrata cada passarrinho e chafariz do caminho. Você não quer mais pensar em voltar, você teme que o dia chegue. Você se arrepende daquele tempo em coma, em casa. Você se arrepende de não ter ido àquele lugar antes, de não ter visitado aquele amigo no verão, de não ter provado aquela bebida, de não ter trocado o seriado pelo teatro, de não ter corrido no parque… E promete, DA PRÓXIMA VEZ EU NÃO VOU PERDER NADA! E é esse o sinal de que você se adaptou.

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5 Respostas para “ADAPT-AÇÃO

  1. Acredito que não importa quanto tempo passe, sempre vão ter momentos que você vai sentir que não pertence, que aquele não é o seu lugar, mesmo que você chame de casa. Você passa a se conhecer muito melhor ( que até assusta), começa a dar valor as coisas que realmente tem valor, que certo e errado é questão de opinião e cultura. E Uma vez que saiu da sua comodidade, do seu país, é difícil voltar, ou pensar num próximo destino.

  2. Querida Nicole, que alegria ler o seu texto. Estou de partida para a Hungria e, a princípio, sem data para a volta. Espero que eu consiga passar pelas fazer mais difíceis e poder construir uma vida por lá. Um beijo.

  3. Não nos deixemos enganar: mudar de país… deixar os seus… e enjoados de tudo buscarmos um novo “fôlego de vida”… não se resolve (simplesmente) com a ida para um “novo” país. Quem perdido está, em qualquer lugar desorientando vai estar.

    Obrigado pelas palavras, Amanda Morais.

  4. Meu esposo está com chances de mudar para Budapeste, euzinha comecei a pesquisar: clima, comida, educação e especialmente segurança. Pois como já temos filho, este quesito está deveras negativo no Brasil! Vou adorar acompanhar textos e se tudo der certo, pretendo manter entusiasmo das descobertas iniciais…pular a fase de se esconder embaixo das cobertas e me cobrir com a magia do desconhecido! Espero em breve dar sorriso bem brasileiro em terras Húngaras!

    • Oi Gabriela, espero que encontre aqui o que está buscando. Segurança para família não tem preço mesmo. Temos um grupo Brasileiros na Hungria no Facebook, qualquer dúvida a galera responde. 🙂

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