[Diário de Viagem] Milão

Milão, 21/09/2013 – 06:00h.

De repente me pego pensando, o que eu estava fazendo no dia 21 de setembro de 2012? Procurando lembranças, assisti às cenas de uma nova etapa que começava pra mim há exatos 360 dias: nova cidade, novos amigos, nova rotina e, mais uma vez, um instigante desafio pela frente. Agora me pergunto, passava pela minha cabeça que um ano depois, na mesma data, eu estaria cruzando as praças de Milão? Abismando-me com as monumentais e luxuosas construções da cidade? Deliciando-me com legítimos sorvetes italianos?

Surpresas da vida que não param de acontecer e me impressionar cada vez mais. Parece loucura imaginar que de repente ficou tão simples realizar todos os desejos, materializar todos os sonhos, enxergar com meus próprios olhos aquilo que os livros me faziam ver. De repente, tudo aqui, na minha frente, só esperando eu passar.

E mesmo que tudo isso aconteça repetidas vezes, não se torna normal. Nunca se tornará normal. Não vou parar de me surpreender, não vou parar de admirar, de conhecer e, mais que isso, não vou parar de sonhar, porque se isso hoje está acontecendo, é porque foi planejado, batalhado e gratificantemente conquistado.

E as minhas impressões de Milão? Até agora meus olhos não perderam o brilho e meu corpo não se recuperou do excesso de delícias ingeridas. Quando tiver a oportunidade de conhecer essa incrível cidade, agarre-a! Não a deixe passar!

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Saindo do aeroporto.

 

Confesso que tinha um preconceito quanto à Milão, devido ao status de moda, luxo e, na minha idiota visão, futilidade. Pensava que as pessoas de lá só respiravam ostentação e desejavam aparecer. De fato, a riqueza do lugar é impressionante. Sim, eu me sentia uma pobre coitada em meio a extensos números posicionados depois do €. Parei de julgá-los quando dei conta da organização da cidade, da eficiência do transporte público e, principalmente, da exuberância das construções, praças e monumentos.

Não basta ser a Capital do Design e ser a maior influência do mundo no comércio, música, literatura e arte, tem que sustentar isso à grande estilo e estar pronta pra receber as pessoas mais exigentes da Terra, percebi meu engano. Não se trata de futilidade, se trata de cuidado, cuidado nos detalhes, na aparência e boa apresentação.

Ruas e calçadas misturam-se e só as linhas de bondinho me fazem perceber que estou no meio do trânsito, caótico por sinal. Sonorizado com buzinas, gritos e xingamentos, os italianos não parecem cautelosos, nem tão pouco discretos em suas discussões. O que mais se vê são lambretas e carrinhos pequenos, o “Smart” é febre por aqui. O conselho a você, futuro turista de Milão, é que não alugue carro, pois além dessa discordância de motoristas, ciclistas e pedestres, o transporte público é realmente eficiente, confortável e barato, com € 4,50 é possível comprar um bilhete para todos os meios de transporte da cidade com durabilidade de 24 horas; se quiser aproveitar 48 horas, o valor passa a ser € 8,00. Acredite, isso facilita muito os passeios e elimina o limite da curiosidade de conhecer vários pontos da cidade.

Aos impossibilitados de fazer compras ou desinteressados por moda, restam duas ‘singelas’ opções de lazer: os magníficos pontos turísticos e a indescritível gastronomia.

Posso estar sendo repetitiva e, mais que isso, ineficiente, pois não consigo transcrever as belezas do lugar, coisa que seria minha função, mas me justifico dizendo que mais que observar uma obra, uma praça, um parque, você precisa sentir cada um deles. E as atmosferas são completamente distintas. Então, perdoe minha pouca capacidade em traduzir sentimentos, seguem palavras, pequenas descrições:

Ao subir as escadas da estação “Duomo” tive duas grandes surpresas: 1. Que tipo de monstruosidade branca é essa que está parada na minha frente? 2. O que esses homens estão gritando enquanto me puxam pelo braço? Explicando melhor, enquanto você está ali congelado e barbarizado pela beleza da Catedral de Milão (Duomo di Milano) aproveitadores e usurpadores da inocência alheia te empurram “pulseiras” malditas, que não passam de um pedaço de linha, simplesmente acorrentam aquilo no seu punho e vão te seguindo, falando sem parar até que de repente só se entenda “Um euro”. Neguei, neguei, neguei, xinguei, mas ainda assim o infeliz conseguiu atar-me, desatei e fui devolver, ele se recuou para trás, rejeitando segurar, joguei o pedaço de linha e saí aflita, temendo ser perseguida. Quando olhei para trás, meus colegas estavam procurando nos bolsos as moedas que os livrariam da chateação. Economizei, cheia de medo, mas superei a exploração! Sucesso.

Recuperada da ira, só emudeci e fiquei parada olhando aquela imensidão. Me sentia um ponto insignificantemente pequeno, rodeada pela imponente catedral. A impressionante arquitetura atinge seu objetivo: mostra a grandeza e o poder da igreja perante o homem, assusta sem afugentar, amedronta silenciosamente. Mesmo os não cristãos paralisam diante de tamanha demonstração de domínio. E nesse momento o que passa na cabeça é somente como isso foi feito? Como pode há tantos anos já ser possível erguer coisas dessa proporção? Perguntas sem respostas, só imaginava a vida ali nos séculos passados, mulheres arrastando seus vestidos pelas calçadas, carroças, crianças correndo, os padres e bispos subindo os degraus estreitos das torres e os artistas apoiados na obra cuidando de cada detalhe. Senti o cheiro de pão ao mesmo tempo em que ouvia os passos dos cavalos. Voltei ao tempo.

Para se ter ideia, são 157 m de comprimento e 109 m de largura, o interior tem cinco naves com uma altura que chega aos 45 metros, divididas por 40 pilares.A construção foi iniciada em 1386 e, somente em 1813 foi finalizada. Para dimensionar, ou tentar, com € 7,00 é possível subir ao telhado da igreja, são aproximadamente 250 degraus que separam sua boa impressão de uma genial sensação de pequenez. Sobre o telhado, além de admirar cada figura esculpida detalhadamente no mármore, é possível ver a cidade em todas as direções e se sentir ainda menor. A melhor parte do passeio foi deitar nesse telhado e ver como as nuvens dividem seu espaço no céu com as finas torres da igreja. Economize dois sorvetes e faça esse favor à sua vida.

Como se já não bastasse a imensidão da obra, quem a sustenta de maneira impecável, é a Praça Central, cuidadosamente planejada, repleta de pessoas, um imponente monumento serve de ponto de encontro e descanso aos impressionados turistas. Logo a alguns passos dali está a Galleria Vittorio Emanuele, onde se alocam luxuosamente as grifes mais importantes do mundo, juntamente com as pessoas mais influentes da moda. É uma riqueza indescritível, passei por ali rapidinho com medo de atrapalhar as compras das finas senhoras e também por não me sentir confortável, ainda que muito lindo, o excesso de luxo assusta aos desacostumados. Emoldurando a praça, restaurantes e sorveteiras deixam o ambiente mais alegre e cheiroso. Porém, nossa condição de turismo não permitiu nos aproximar muito desses locais.

E quando você pensa que não há mais com o que se surpreender, o trajeto é interrompido por um chafariz enorme, lindo, cercado de pessoas, flores e, novamente, os inconvenientes senhores das pulseiras amaldiçoadas, mais uma porção de inocentes pagando para fugir com a linha no punho. E mais uma vez, eu escapo sem pensar. Logo o inconveniente é esquecido quando se percebe que atrás do chafariz, esconde-se estrategicamente posicionado, um castelo robusto, o Castello Sforzesco. Suas muralhas e torres cercam um imenso jardim de gramas bem aparadas, as quais me convidavam para receber um abraço, não tive outra atitude, deitei-me naquele pedaço de paraíso e, mais uma vez, me transportei olhando para o céu. Tudo isso é real? Estou aqui mesmo? Em questão de segundos todo o grupo esticou o corpo e silenciou observando as nuvens. Barulho de imaginação, cada um ouviu o que sentia. São essas sensações que não consigo descrever, mas sugiro: não se acanhe! Deite mesmo! Sabe-se lá quantas pessoas caminharam por aquelas gramas anos atrás, quantas decisões foram tomadas ali naquele jardim, quantos importantes casais se formaram e mais, quantos artistas não fizeram o mesmo que nós, buscando inspiração nos poderes do infinito azul.

Atrás do Castello há um imenso parque, com extensos espaços de lazer, brinquedos para crianças, locais especiais para a diversão dos cachorros, arenas, biblioteca, museus e uma série de locais culturais. Centenas de pessoas gastavam seu sábado colorindo o local já afetado pelo outono. Mais um pouquinho de cheiro de campo. Lá no fundo um arco, similar ao Arco do Triunfo em Paris, esse também homenageia Napoleão e suas conquistas.

E os pontos turísticos terminam com o estádio do Milan, não quero desmerecer, mas talvez depois de termos visto tantas monstruosidades ele pareceu pequeno e insignificante na cidade. Além disso, seus arredores pareciam descuidados. Uma decepção? Não, diria que já estávamos embriagados de gigantismos, o pôr do sol salvou a visita.

 

Finalizados os comentários relacionados às exuberâncias arquitetônicas e urbanísticas, vamos tratar brevemente da divina gastronomia! Como isso faz parte do turismo da Itália, nada mais sensato que reservar um dinheiro para gastar nesse item, afinal não haverá outras iguarias iguais no mundo. O café da manhã já foi delicioso, o famoso panini acompanhado de café com leite deu ânimo para continuar o dia. Tivemos momentos de glória com uma legítima lasanha a bolonhesa e doces tradicionais de padarias, os quais infelizmente (e por incompetência) eu não lembro o nome.

 

Os grandes destaques se resumem em três palavras: sorvete, happy e hour. Isso mesmo! Nunca pensei que havia um tipo de sorvete totalmente diferente de qualquer outro que já tomei. Merece a fama que tem, o sabor é marcante, a cremosidade é ideal e a generosidade das porções nos encantou! Com € 3,00 você tinha um pedaço de sonho em forma de bolas coloridas, com sabores a escolher perante uma cartela cheia de variedades! Cadê o tempo para provar cada um? Meus favoritos: avelã e coco. Maravilhosos!

Quando você encontrar as palavras Happy e Hour juntas em uma placa, só tome uma atitude: sorria. A verdadeira tradução do Happy hour está na Itália, pois qualquer lugar que sinalize esse sistema faz você exagerar na comida e desafiar seu corpo na digestão. Duvida? O que você faria se com € 8,00 fosse possível escolher uma bebida e comer sem limites frios, massas, doces e frutas? Claro que sua gula também seria provocada! Não é ficção, é real, livre mesmo! Pegue seu pratinho e coloque tudo o que quiser, quantas vezes quiser. Presuntos, queijos, salames, outros tipos de frios que minha estupidez desconhecia, mas meu paladar fez questão de tirar o tempo perdido; spagetti, penne, lasanha, canelloni, batata, frango, risoto, pizza… é isso mesmo? Além de saladas, pães, bolo, melão, nutella… Canso só de lembrar os momentos de fartura! Você se satisfaz no primeiro prato, contudo as delícias insistem em te chamar e assim o caminho até o Buffet é trilhado algumas vezes. Ressalto que tudo isso não é de maneira comportada ou exuberante, os italianos atacam mesmo, não respeitam fila e quando veem uma forma saindo da cozinha disparam em direção ao garçom! Chega a ser cômico a disputa pelas fatias de salame. E que salame é esse?

Quando já não havia mais forças entre nós, só sorrisos preguiçosos de satisfação e, por unanimidade, a melhor parte de Milão é a região de Ticinese (Geneva é o nome da parada de metrô). Um rio divide os restaurantes e pubs repletos de amigos e casais sorridentes, que descansam de suas horas exaustivas na cidade. Vendedores de flores são sucesso, vários futuros maridos impressionam suas acompanhantes com rosas de todas as cores. Os que ainda aguardam companhia se escoram nas margens do rio e refletem com o movimento das águas transparentes. Um legítimo lugar boêmio que me faz querer perder horas sentada em uma daquelas mesas, degustando um vinho e observando cada pessoa. Infelizmente não pude fazer isso, mas fica a sugestão, “perca” um pouquinho do seu tempo só olhando o movimento. 

 

E assim resumo Milão, lugares encantadores e comida farta. Recomendo a solteiros, casados, jovens, crianças, idosos, desde que sejam inspirados e cheios de desejos. Faltou-me apenas a realização de um desejo: ver a “Última Ceia” de da Vinci, mas isso é perdoado, pois são necessários em média dois meses para serem reservados horários de observação, agora que já o avisei, não perca a oportunidade! São somente 30 minutos de visita à mais importante obra de arte da história. Mago da Vinci!

30

Muito mais que o panetone, Milão mostrou-me a felicidade dos ricos, mesmo não fazendo parte deles.

 

 

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4 Respostas para “[Diário de Viagem] Milão

  1. Boa noite….Amanda.

    Meus Avós são Húngaros. Pelo menos minha avó, tenho certeza, nasceu em Buda Pest. Porém meu avô não sei em qual

    Cidade da Hungria nasceu. Pergunto: existe na Hungria um departamento do governo ou algum lugar que possa pesquisar

    As origens de minha família. Eles vieram para o Brasil em 1924.

    Grande abraço.

    José Lourenço Pechtoll.

    • Olá, talvez você consiga alguma informação no Consulado Húngaro no Brasil, fica em São Paulo e eles são bastante acessíveis. Vale tentar lá primeiro ;] Qualquer novidade, compartilhe conosco!

  2. Olá, irei a Budapest em outubro/2016, mas tenho tido receios por conta dos problemas que o governo teve com os imigrantes na estação de trem em setembro de 2015. Como está a cidade atualmente? Está tranquilo para turistas?

    • Oi Scarlett, não há por que ter receio. O real problema de imigração vai muito além do que a mídia mostra. Para turistas ou até expatriados é tranquila morar/visitar o país. Abraços, Nicki

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